segunda-feira, maio 29, 2006

Dois milagres e o futuro em cartão

Esta feira faz milagres. Sim, porque eu não faço milagres e as Nossas Senhoras de serviço devem estar ocupadas - se não estão, deviam - com outras tarefas mais importantes. E os milagres simplesmente aconteceram.

Sim, fui à feira. Fui à feira! Fui à feiiiiiiraaaaa!!!!!!! E senti muitas coisas, sim. Mas isso agora não interessa, porque aconteceram dois milagres. Dois milagres que sempre me pareceram possíveis mas que tardavam. Um dos milagres foi concebido por mim, o outro desejado por mim e ambos obra e graça do Espírito Santo ou de algum outro santo mais atento às efemérides livrescas. O primeiro milagre concretizou-se à entrada da feira. E não sei que horas eram quando concebi a ideia do segundo milagre. A Mulher sonha, Deus quer, a obra nasce; esta é de todo a feira do nosso contentamento. E se este ano ainda não brilha ao sol de Abril - mas garanto-vos que as águas mil não falharão para o tornar steinbeckianamente verdade - brilha, para já, sob um sol escaldante de Agosto.

O que comprei? Ora, uma ninharia… cinco livritos. Aproveito para chamar a atenção (como E. fez comigo) para os pequenos fascículos da INCM - sobre diversos autores portugueses «O essencial sobre», cujo preço de capa passou de 1 euro para 4 euros (preços de feira a variar proporcionalmente), o que serve de repto para comprar os antigos que vir por aí… Feitos tanto para os aficionados do ensaio como para os devoradores deste ou daquele autor, são pequenos papers editados em forma de livrinho, e que nada (não receiem…) têm a ver com aquelas aproximações feitas para aluno preguiçoso de escola secundária que se propõem ensinar a ler o Eça ou o Garrett.

A chamada de atenção tem a ver com serem obras pequenas e de grande qualidade, (quase) sem gralhas, escritas por grandes ensaístas - destaco o de Alzira Seixo sobre Saramago - pelo incrível preço de feira de 50 cêntimos. Acrescento que isto não é publicidade à casa (mesmo que fosse, a INCM é uma entidade pública) embora a pobrezinha, ao que tudo indica, vá perder uma pipa de receita com a passagem a acesso gratuito do Diário da República on-line.

Outra coisa a não perder: a vista, sempre refrescante, da varanda do bar de cartão no topo do Parque. O cartão, material esteticamente inesgotável, tem fornecido à capacidade de improviso lusa as melhores (e mais em conta) soluções tecnológicas :-) No fim da feira, desfazemos o bar e com os destroços, construímos uns milhares de valises - e fugimos daqui…

sexta-feira, maio 26, 2006

Foi ali

Foi ali que comprei mais de metade dos meus Albert Camus: capa de cartolina azul da Livros do Brasil, folhas ainda por separar, a fome de palavras em estado bruto dos meus 15 anos. Cento e quarenta escudos, me custou A Morte Feliz. Lembro-me.

Era ali, duas ruas abaixo do liceu, que eu comia o primeiro gelado do ano, enquanto empoleirava livros debaixo do braço e asas de sacos entre os dedos.

Era ali, também, que eu passei a encontrar, anualmente, bienalmente, trienalmente, alguns dos meus amigos. Um dia ainda havemos de saber descodificar melhor os nossos primeiros anos e o rasto que deles nos fica e nos ancora. E lamentá-lo, talvez.

E no princípio era o Verbo.

quinta-feira, maio 25, 2006

No dia do teu regresso

E porque queria que este blog nascesse no dia em que oficialmente abre a Feira do Livro de Lisboa, só o devia pôr no ar amanhã - pensei eu ontem. Mas amanhã estou ocupadíssima, mas amanhã é amanhã e eu sinto a feira já hoje, mas as barraquinhas já estão montadas, e o meu verão, oficialmente, começa quando a feira desponta. Sim, é verão em Lisboa quando no Parque despontam os palanques para os primeiros toldos brancos, quando se empilham as barracas ainda por montar e, uma a uma, elas vão sendo postas de pé. Quando já há flores nas árvores, quando os pássaros já se instalaram na amenidade da primavera e traçaram as respectivas rotas domésticas.

Sim, eu amo esta feira, a dos livros, em Lisboa; no exacto lugar onde há imensos anos se realiza. Aqui, sim, na ventania do Parque; aqui, onde dizem que a inclinação é demasiada (hã?), onde chove copiosamente na primeira e às vezes nas demais semanas; aqui, sim, onde ficam pedras soltas da montagem das barracas, e buracos; aqui, onde está frio à noite, e calor pela tarde; aqui, sim, onde quase sempre os multibancos avariam. Onde não há, num raio de suficientes hectómetros, um Mc Donalds para calar as crianças e a criança que há em centenas de leitores, e o que há são farturas e algodão doce, iguarias cujo imaginário morreu de velho, ou inexiste em criança alguma, criança-simplesmente-criança ou criança-dentro de leitor algum.

Sim, sabemos que é verão em Lisboa quando a feira começa - e sabemos que vai chover poucos dias depois.

Sim, eu conheci a Feira do Livro noutros lugares de Lisboa. Na Rua Augusta. Na Avenida da Liberdade - ou deverei dizer Passeio Público, aos anos que foi? E em alguns outros lugares. E conheci salões do livro, e feiras de vários tamanhos e formatos, dos barracões de Santa Apolónia aos novíssimos pavilhões da FIL, do Mercado da Ribeira ao Metro do Oriente. Por mais incrível que pareça, neste país de improváveis leitores, em todos os lugares possíveis já se fizeram, e se fazem, todos os anos, inúmeras feiras. Debaixo de toldos de plástico, debaixo de pálas de betão, debaixo das árvores, debaixo de chuva, debaixo de sol, debaixo de pássaros, debaixo de crises variadas e contraditórias, debaixo de crónicas de jornalistas maldizendo as feiras, as organizações, os eventos, e em particular esta, com o vento, o frio, a chuva, os buracos e as pedras soltas... Vida dura a das feiras do livro em Portugal.

Sim, este blog - que prevejo efémero (três semanitas, dura uma feira?...) e ridículo como qualquer carta de amor - é uma homenagem a esta FLL, que eu amo, mais do que qualquer evento periódico em Lisboa. Que me desculpem as festividades religiosas, os festivais de órgão natalícios, as festas de Lisboa, o Santo António e o mais que haja merecedor do meu contento na capital. Contra tudo e contra todos, e suspeito que por iguais doses de inércia e realismo, a feira continua no Parque. Nem que seja para me fazer feliz.